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VISÃO SISTÊMICA DA FAMÍLIA

16/02/17 | por | Doutrina | Comentários desativados em VISÃO SISTÊMICA DA FAMÍLIA

VISÃO SISTÊMICA DA FAMÍLIA

Caio Eduardo de Aguirre

SUMÁRIO: 1 Introdução. 2 Surgimento das Teorias Sistêmicas. 3 Família como Sistema. 4 Características da Teoria dos Sistemas Aplicáveis à Família. 5 Conclusão. Bibliografia.

1 Introdução

O modelo hegemônico de família em meados do século XX era o da família moderna, conjugal monogâmica, hierarquizada, constituída de pai, mantenedor, mãe, responsável pelos afazeres domésticos, e filhos.

No pós-guerra, a família passa a adquirir forma mais igualitária e democrática, o que ocorreu em função de diversos fatores, entre eles o grande desenvolvimento técnico-científico em várias áreas do conhecimento, movimentos de transformação social, como libertação da mulher, liberação sexual e questionamentos das instituições sociais. Houve, enfim, mudança de valores, crenças e padrões de relacionamentos dentro da família[1].

Explica Juliana Gontijo Aun que Jean-Jacques Rousseau já havia abordado o tema da família e ressaltado a influência dos pais sobre as crianças, embora somente com o advento da psicanálise, com Freud, é que as relações familiares tenham se tornado foco de estudo[2].

Entretanto, inicialmente a psicanálise voltou-se unicamente ao tratamento intrapsíquico, sem envolvimento da família na prática terapêutica.

Somente em meados do século XX, com a difusão da psicologia, psiquiatria e psicanálise, é que a família e outros grupos sociais ganham “status de determinantes da saúde/doença do indivíduo e passaram a ser objeto de intervenção[3].

Por um lado, essa difusão trouxe o tema das relações familiares para a população leiga e, por outro, a psiquiatria e psicanálise, até então focadas no indivíduo isoladamente considerado, começam a se interessar pelos fatores sociais e a integrá-los em seus arcabouços teóricos. A educação dos filhos passa a ser vista não só como transmissão cultural, mas também como formação de um psiquismo saudável, o que se daria pela realização pessoal e pela satisfação dos filhos[4].

Importa dizer que, na verdade, desde a década de 1920, nos Estados Unidos, havia a prática de atender também os pais das crianças que estavam se submetendo a tratamento.

No Brasil, credita-se o início do trabalho com as famílias ao surgimento do Centro de Orientação Juvenil do Departamento Nacional da Criança do Ministério da Saúde, no Rio de Janeiro, em 1946, onde havia igualmente atendimento também aos pais. Todavia, a família não era ainda encarada como uma unidade, o que passaria a acontecer somente na segunda metade do século XX, a partir da influência das teorias sistêmicas nas terapias familiares [5].

2 Surgimento das Teorias Sistêmicas           

Em 1948, Norbert Wiener publicou seu livro denominado Cibernética ou Controle e Comunicação no Animal e na Máquina.

Como o próprio título da obra explica, tratou-se de uma teoria da comunicação e do controle, na qual tanto as máquinas como os seres vivos passam a ser concebidos como um conjunto de elementos em interação, ou seja, como um sistema, sendo que tais interações se dão pela comunicação.

A mensagem é o elemento central para a comunicação e controle dos elementos.

Como leciona Maria José Esteves de Vasconcellos, a cibernética chegou a ser definida como a teoria da comunicação [6].

Observa essa autora que a mensagem foi considerada elemento central tanto na comunicação quanto no controle do sistema e que a cibernética foi considerada uma teoria sistêmica ao deslocar o foco que os cientistas colocavam nos elementos componentes de qualquer complexo para o estudo das relações entre esses elementos:

Considerou-se que a mensagem é o elemento central tanto na comunicação quanto no controle. Diz ele: ‘Quando me comunico, transmito uma mensagem; quando comando, também transmito uma mensagem’. Por isso, abordou conjuntamente os problemas do controle e da comunicação, focalizando a transmissão das mensagens, seja por meios elétricos, mecânicos, seja por meios nervosos. Assim, a cibernética já foi definida como uma teoria das mensagens.           

Assim, a cibernética constituiu-se como uma teoria sistêmica: deslocou o foco que os cientistas tradicionalmente colocavam nos elementos componentes de qualquer complexo que estivessem estudando – para o estudo das relações (comunicações e interações) entre esses elementos.” [7]

Wiener pretendeu identificar princípios que explicassem o funcionamento dos sistemas independentemente da natureza dos elementos que compõem esse sistema.

Tais princípios explicariam, assim, tanto o funcionamento de uma máquina quanto dos seres humanos. A cibernética propunha, então, uma teoria geral dos sistemas.

Pouco tempo depois, em 1968, o biólogo austríaco Ludwing von Bertalanffy também elabora sua própria teoria sistêmica, lançando o livro intitulado Teoria Geral dos Sistemas.

Como informa Maria José Esteves de Vanconcellos, o próprio Bertalanffy teria atribuído à sua teoria um caráter mais organicista, enquanto a de Wiener seria mais mecanicista, muito embora os próprios ciberneticistas tenham voltado atenção para entender o funcionamento dos sistemas naturais, tanto que Wiener, antes mesmo do lançamento do referido livro, publica, em 1943, o artigo Comportamento, Intenção e Teleologia, em coautoria com o fisiologista Rosenblueth e com o engenheiro Bigelow.

Assim, a cibernética assumiu a mesma proposta da Teoria Geral dos Sistemas, a qual foi apresentada pelo próprio Bertalanffy como “teoria de princípios universais, aplicáveis aos sistemas em geral, quer sejam de natureza física, biológica, quer de natureza sociológica, desenvolvendo princípios básicos interdisciplinares[8].

Marcio Pugliesi enfatiza que a abordagem sistêmica é uma referência fundamental e compartilhada hoje em dia por muitos cientistas, sobretudo nas ciências da natureza e sociais. Menciona tratar-se de uma nova visão da realidade, diferenciando-se da abordagem científica clássica, analítica, que se concentrava no estudo dos elementos em si, o que caracterizava nítida adesão ao método cartesiano, método esse que disseca e isola o objeto do contexto para estudá-lo:

A abordagem sistêmica é, de fato, uma nova visão da realidade, pelo menos quando contraproposta à abordagem científica clássica, analítica e mecânica. A abordagem analítica concentrou-se no estudo dos elementos em si, dos objetos enquanto aquilo que se põe sob os sentidos. Cada objeto, numa característica adesão ao método cartesiano, foi minudentemente descrito, teve suas características esmiuçadas, foi decomposto, segundo o mesmo método, em outros objetos mais simples. O objeto foi assim isolado do contexto de outros objetos e isolado do observador.”[9]

E continua o citado autor esclarecendo que o objeto de estudo, pelo método cartesiano, foi cada vez mais sendo isolado do contexto de outros objetos e do observador, sendo insistentemente decomposto. Todavia, nesse processo de redução, os cientistas da física acabaram descobrindo partículas difíceis de descrever, os quarks. Assim, instaurada essa crise epistemológica em face desse impasse, os cientistas, como que para sair desse aparente mas inexplicável fim do caminho, passaram a estudar a relação de cada objeto com outros objetos próximos, nascendo, então, abordagem sistêmica:

Cada ciência teve seu objeto básico, cada vez menor e cada vez mais decomposto. A Física teve, por exemplo, na microfísica: o átomo e seus constituintes; a Biologia Celular: a célula e suas partes. No entanto, esta abordagem tornou-se insuficiente quando na Física foram descobertas partículas que, como os quarks, eram difíceis de descrever. Instaurou-se uma crise epistemológica: passou-se a discutir, com intensidade e profundidade, métodos e evolução de teorias. Passou-se, então, a estudar a relação de cada objeto com outros objetos próximos e desse procedimento nasceu a ideia de abordagem sistêmica que se concentra nas interações entre os elementos de uma dada porção da realidade designada por sistema e, por assim dizer, isolada da influência do meio.” [10]

A principal ideia, relevante para os fins ora propostos, é a de que o sistema pode ser definido, nos termos propostos pelo próprio Bertalanffy, como “conjunto de elementos em interação[11], sendo suas características aplicáveis perfeitamente às famílias.

                                   

3 Família como Sistema

Com a influência das teorias sistêmicas sobre a família, essa passa a ser vista de forma global, na qual o todo difere dos elementos que a compõem. Aliás, uma das principais características da visão sistêmica é a de que o todo não se limita à soma das partes, adquirindo características próprias.

A família é então maior que a soma das partes e, nas palavras de Verônica A. da Motta Cezar-Ferreira, existe uma dinâmica de ordens e processos que se influenciam mutuamente:

Essa teoria, ao propor o sistema como uma dinâmica de ordens e processos em que se exercem influências recíprocas, preconiza, em decorrência, que o raciocínio linear ceda lugar a uma proposta que busca a interação dos vários fenômenos. Por essa visão, o todo deixa de ser compreendido como uma mera soma de suas partes, para ser entendido como ‘maior que a soma das partes’, o que encerra a ideia de inter-relação dessas partes e a ideia de uma causalidade circular em lugar da tradicional linearidade ‘causa-efeito’.[12]

Dentro desse contexto sistêmico, a família é diferente das pessoas que a compõem e passa a ser vista como uma unidade psicoafetiva que constrói um padrão relacional próprio, fundado em valores, crenças e mitos.

Marilene A. Grandesso lembra que com a abordagem sistêmica há, na terapia familiar, uma transposição do território intrapsíquico para um contexto inter-relacional:

Tendo como seu primeiro salto qualitativo e paradigmático a compreensão do indivíduo não mais no âmbito de sua individualidade, mas das relações e dos contextos em que se inseria, as primeiras abordagens de terapia organizadas pela teoria geral dos sistemas de Bertalanffy (BERTALANFFY, 1975) e da cibernética de Norbert Wiener (WIENER, 1961) deixaram o território do intrapsíquico para se organizarem no contexto inter-relacional.[13]

Arrisca-se aqui a fazer um paralelo entre a mencionada incapacidade dos cientistas em explicar o quark e o abandono, pelos terapeutas, da análise focada somente no intrapsíquico do indivíduo.

Da mesma forma como os cientistas se depararam com a incapacidade de explicar os quarks e tiveram que analisar os objetos em interação com outros objetos, a análise do intrapsíquico demonstrou-se insuficiente para o entendimento da forma de funcionamento da família, tendo sido necessário que voltassem a visão para o padrão relacional entre os integrantes dessa instituição.

É atribuída ao antropólogo Gregory Bateson, que havia integrado, juntamente com cientistas de outras áreas, o grupo de pesquisadores das chamadas Conferências Macy, promovidas pela Fundação Josiah Macy, na década de 1940, em Nova York, a transposição e a aplicação dos conceitos da teoria sistêmica para a terapia familiar.

A relação entre cibernética e terapia consolidou-se quando Bateson desenvolveu estudos no Hospital dos Veteranos, em Palo Alto, Califórnia, nos Estados Unidos, entre 1946 e 1949, reunindo um grupo interessado em aspectos da comunicação em famílias de esquizofrênicos.

A partir desse estudo escreveu artigo científico descrevendo a comunicação patogênica nas famílias esquizofrênicas e apresentando a hipótese do duplo-vínculo, uma forma paradoxal de comunicação com profundas implicações nas relações interpessoais (VASCONCELLOS, p. 153).

Bateson e sua equipe trataram a família como uma máquina que busca a estabilidade, isto é, busca a homeostase, dispondo de circuitos de retroalimentação negativa cujo efeito é corrigir desvios da trajetória em direção à meta, como explica Maria José Esteves de Vanconcellos:

Bateson foi um dos primeiros autores a introduzir a ideia de que a família podia ser análoga a um sistema cibernético, ou seja, uma máquina cibernética que busca a estabilidade (homeostática) e que pode fazê-lo por dispor de circuitos de retroalimentação negativa (‘circuitos de realimentação ativados pelo erro’), cujo efeito é o de reduzir (daí o adjetivo negativo) possíveis desvios da trajetória em direção à meta (Hoffman).[14]

Dessa forma, as famílias esquizofrênicas pareciam utilizar o mecanismo homeostático para se opor à mudança e manter o funcionamento do sistema da forma como até então vinha operando.

Acerca disso narra Maria José Esteves de Vasconcellos:

Nessa concepção, quando o sistema familiar se desvia do modo de funcionamento que caracteriza seu ‘equilíbrio’, ou seja, se desvia de seu ‘funcionamento normal’, aparece em um dos seus membros um sintoma. Para lidar com esse sintoma, os demais membros podem reassumir os papéis que anteriormente desempenhavam e o sistema pode reassumir sua forma característica de funcionar, voltando a seu estado de equilíbrio.”[15]

Nota-se que, ao invés de alterar as regras de funcionamento e, dessa forma, mudar a família, pelo contrário, lançava mão da homeostase ainda que às custas da manutenção de um elemento doente dentro dela. Isso para que, através desse mecanismo, o funcionamento do sistema não sofresse alteração.

A compreensão da família como um sistema, focando mais o padrão de interação de seus elementos do que os próprios elementos em si, foi fundamental para identificar e tratar patologias.

O terapeuta passou a intervir no sistema através de mensagens, já que, como mencionado, a cibernética pregava o controle dos elementos do sistema por esse meio.

Já num segundo momento, a partir das ideias do ciberneticista Maruyama e do conceito de retroalimentação positiva, e não mais negativa, passou-se a entender que a capacidade de sobrevivência dos seres vivos dependia, na verdade, não da homeostase, mas da capacidade de modificar sua estrutura para fazer frente às demandas do meio.

Tem início então a segunda cibernética, que prega a ampliação do desvio do funcionamento do sistema (e não mais a tentativa de nele intervir para corrigir seu funcionamento), promovendo a sua transformação e levando-o a um novo regime de funcionamento.

Deixa-se de corrigir o sistema por meio da retroalimentação negativa e passa-se a utilizar a retroalimentação positiva para que o sistema mude, e, dessa forma, evolua.

Como esclarece Vasconcellos, a partir da segunda cibernética o terapeuta passa a acreditar que a crise é então uma oportunidade para o sistema familiar mudar suas regras de interação. Nesse contexto, a atuação do terapeuta deixa de ser a utilização de mensagens e passa a ser a busca de alternativas para que o próprio sistema escolha outras formas de funcionar, formas essas mais satisfatórias para seus integrantes [16].

Ressalte-se que tanto na primeira como na segunda cibernética o terapeuta se entendia como posicionado fora do sistema, como um observador externo a ele.

Mas, com as contribuições das ideias do biólogo chileno Humberto Matura, chega-se ao entendimento de que não há uma realidade objetiva, externa ao observador do sistema. Compreende-se que o observador integra a realidade que enxerga.

Como diz Vasconcellos, “a consequência natural foi a cibernética assumir que as noções cibernéticas não se aplicavam somente aos sistemas observados (artificiais ou naturais), mas também aos próprios cientistas como observadores[17]. Trata-se da cibernética da cibernética.

Nesse estágio, a realidade passa a ser uma construção consensual, através da narrativa, num espaço de intersubjetividade, espaço em que, evidentemente, o observador, no caso o terapeuta, está inserido. Fala-se, então, em construtivismo.

A narrativa da realidade ganha enorme destaque. Como menciona Goolishian [18], “sistemas não fazem problemas; o linguajar sobre problemas é que constitui sistemas“.

Como é de se supor, esse novo enfoque novamente alterou a forma de abordagem das famílias. O terapeuta irá então “criar um contexto de autonomia em que a conversação sobre as narrativas possa conduzir à dissolução do problema, ou seja, em que se possa coconstruir uma solução para ele” (VASCONCELLOS, p. 158).

Assim, é possível notar que a forma de lidar com a família, no caso, pelo terapeuta, é imensamente influenciada pela visão sistêmica dela.

E a evolução dessa visão acarreta também novas forma de abordagem pelos profissionais que lidam com a família, ficando evidente a relevância das teorias sistêmicas.

Outras características da teoria dos sistemas se notam claramente na família, como se passa a abordar.

4 Características da Teoria dos Sistemas Aplicáveis à Família

Os sistemas são abertos à troca de matéria, energia e informação com o ambiente e com outros sistemas. Com isso, crescem em direção a maior complexidade e organização. Por outro lado, sistemas fechados que, como pontua Marcio Pugliesi, “correspondem a artifícios teóricos e não existem na natureza” caminham para maior desorganização e para a extinção. Vale a transcrição do citado autor:

Outra noção fundamental é a de sistema aberto à troca de matéria, energia e informação com o ambiente e outros sistemas. É essa noção que permite entender como os sistemas se desenvolvem e crescem rumo a maior complexidade e mais adequada para seus fins, organização. Assim, se opõem aos sistemas fechados que, entregues a si próprios, caminham para um estado de maior desorganização, sob efeito da lei da entropia (ou morte térmica, anunciada pelo 2º princípio da termodinâmica).[19]

Acentua o mesmo autor que há sistemas, como as famílias, que são mais abertos que outros. Os mais fechados caminham para estagnação, enquanto os mais abertos, embora correndo risco de descaracterização, evoluem:

Do mesmo modo, pode-se considerar uma comunidade como uma família ou uma empresa, como mais fechada ou mais aberta ao exterior. No primeiro caso, ele não sofre mudanças nem crescimento, caminhando para a estagnação. No segundo caso, ela corre o risco de se descaracterizar pelas mudanças incessantes, mas é a única hipótese que tem de se desenvolver, evoluir e crescer. Uma versão reduzida dessa questão é o próprio sujeito: ou se abre para as influências externas e busca antes uma identidade e progride, ou, por outra vertente, se fecha e se depaupera. Por outro lado, talvez uma abertura excessiva acabe por fragmentar seu ego.”[20]

Pode-se extrair da lição transcrita a explicação para o fato mencionado por Verônica A. da Motta Cezar-Ferreira, no sentido de que pessoas e famílias mais flexíveis superam problemas de forma mais fácil do que pessoas e famílias mais rígidas nas interações:

Observou que na rigidez das interações está a fonte das disfunções pessoais e relacionais e que flexibilidade e capacidade de adaptação a situações novas são conditio sine qua non, ou seja, são condições indispensáveis para promoção e manutenção de bem-estar individual e grupal. Em outras palavras, quanto mais rígidas as pessoas ou famílias, maior a possibilidade de atraírem problemas sérios; quanto mais flexíveis, maior a possibilidade de superarem quaisquer problemas.” [21]

A flexibilidade das interações, proporcionada pela abertura do sistema, facilita, portanto, a adaptação e a consequente evolução, enquanto a rigidez oriunda de sistemas menos abertos pode acarretar a estagnação e os problemas dela oriundos.

Outra característica dos sistemas que se pode notar nas famílias é o feedback, que, segundo Elsa Jones, é “a suposição de que um sistema irá reagir à informação dos elementos ou do ambiente com ampliação ou inibição de padrões, de forma a assegurar sua própria continuidade[22].

Ao tratar da interação entre os sistemas e dos feedbacks, ensina Marcio Pugliesi que a informação emitida por um elemento do sistema (ou pelo próprio sistema) acabará sendo recebida por ele próprio:

Assim, qualquer ação ou informação que seja emitida por um dos sistemas ou elementos acaba por ser através da mediação dos outros, recebida por ele próprio, o primeiro elemento emissor (retroação, retroalimentação ou feedback) que pode ser negativa, estabilizadora e homeostática, ou positiva, amplificadora e transformadora. Estes conceitos, importador da cibernética, são centrais na teoria do sistema geral.”[23]

Verifica-se, de tal sorte, que os comportamentos nos sistemas se dão de forma circular ao invés de linear.

É o que observa Elsa Jones ao tratar do tema no âmbito da família, esclarecendo que o comportamento de um dos membros da família necessariamente afetará os demais que, por sua vez, repetirão a prática, com maior ou menor intensidade, afetando, assim, aquele que originou o comportamento:

Os conceitos de feedback e de recursividade ou circularidade tiveram muita importância porque permitiram aos terapeutas sistêmicos conceber as interacções humanas de uma forma que ultrapassou o simples determinismo. Pensa-se que os sistemas humanos apresentam uma interacção circular, isto é, o comportamento A pode levar ao comportamento B, que pode levar ao comportamento C, que pode, por seu turno, levar ao comportamento A. Assim, considera-se que os indivíduos, na sua relação com outros significantes com quem interagem, não só respondem ao feedback como também o suscitam; isto é, actuam circularmente. O feedback pode ser considerado positivo (suscita mais dos comportamentos anteriores) ou negativo (suscita menos comportamentos desses).” [24]

Portanto, elementos e sistemas diversos estão sempre em interação, interação que se dá de forma circular.

Verônica A. da Motta Cezar-Ferreira, após mencionar também que as interações dos familiares se dão de forma circular, conclui que numa situação de separação entre o casal, por exemplo, não só o casal será afetado, mas também os filhos.

Ler a família como sendo um sistema significa aceitar que as influências entre seus membros sejam recíprocas e circulares, ou seja, que A afeta B e C, que B afeta A e C, que C afeta A e B, e assim por diante (causalidade circular), e não que A causa determinado efeito apenas em B, independentemente da participação deste (causalidade linear).

Esse entendimento nos permite afirmar que a separação não afeta somente o casal, mas também os filhos, e justifica a preocupação com a saúde mental e emocional desses últimos, principalmente se estiverem em idade de formação.” [25]

Outra relevante observação feita pela mesma autora é o efeito sobre de alterações previsíveis e imprevisíveis sobre o sistema.

Diz a autora que pequenas alterações previsíveis da vida, que normalmente se dão sobre os membros da família, como crescimento e envelhecimento, exigem uma adaptação do sistema e não chegam a alterar sua organização, ou seja, a família continua existindo. Já outros acontecimentos imprevisíveis, como uma doença grave ou uma separação, pela intensidade afetiva, podem afetar a organização e requerem, portanto, atenção especializada:

Dessa perspectiva sistêmica, pode-se fazer a seguinte consideração. A vida transcorre em sucessivas passagens pelo ciclo vital. Crescimento e envelhecimento são exemplos dessas passagens, mas esses são eventos previsíveis, pelos quais, em princípio, todo o ser humano passa. Por outro lado, há eventos que não são previsíveis, o que inclui desde ganhar uma soma inimaginável na loteria até sofrer uma doença grave. Nesse continuum, alguns acontecimentos da ordem do ciclo vital, pela intensidade afetiva, podem não apenas desestruturar a família, mesmo as mais flexíveis, ainda que momentaneamente, mas, frequentemente, afetar sua organização, requerendo, muitas vezes, atenção especializada para que se reorganize. A crise da separação conjugal, que se inclui entre as crises não previsíveis, costuma alterar literalmente a organização da família, por seu desmembramento, e requerer cuidados especiais.”[26]

E conclui que os sistemas, tal qual a família, precisam caminhar num interminável movimento de estabilidade e mudança, sendo que a integração do conhecido e do novo favorece o encontro de um outro patamar de estabilização. Ou seja, o sistema evolui justamente com as interações, desde que ela não seja, como visto, de tal intensidade que possa extingui-lo:

Por meio de pesquisas, observou-se que a família precisa de estabilidade e, para desenvolver-se adequadamente, precisa caminhar num interminável movimento de estabilidade e mudança. Assim, a integração do conhecimento e do novo favoreceria o encontro de um outro patamar de estabilização.” [27]

                        

5 Conclusão          

A Teoria dos Sistemas mudou sobremaneira a ciência.

A forma linear foi substituída por uma visão causal recursiva, o que influenciou a forma como a família era vista e os tratamentos que sobre ela incidiam.

E isso não diz respeito unicamente à terapia familiar.

A mediação, forma de tratamento de conflito alternativa ao judiciário, também pode considerar a visão sistêmica da realidade, assim como o próprio judiciário que, cada vez mais, vale-se de profissionais da área de psicologia, entre outros, para trabalhar esses conflitos.

A visão global da família, com compreensão da importância das trocas feitas pelos sistemas abertos, é fundamental para o desenvolvimento e evolução desse instituto.

É, ainda, importante que os próprios integrantes da família, e não somente os profissionais que com ela lidam, tenham noção da abordagem sistêmica, compreendendo, assim, o alcance e as responsabilidades de seus comportamentos.

Bibliografia

AUN, Juliana Gontijo; VASCONCELLOS, Maria José Esteves; COELHO, Sônia Vieira. Atendimento sistêmico de famílias e redes sociais: fundamentos teóricos e epistemológicos. 3. ed. Belo Horizonte: Ophicina de Arte e Prosa, 2012. v. I.

BERTALANFFY, Ludwing von. Teoria geral dos sistemas: fundamentos, desenvolvimento e aplicações. 3. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2008.

CEZAR-FERREIRA, Verônica A. da Motta. Família, separação e mediação: uma visão psicojurídica. São Paulo: Método, 2004.

GRANDESSO, Marilene A. Desenvolvimento em terapia familiar: das teoria às práticas e das práticas às teorias. In: OSORIO, Luiz Carlos; VALLE, Maria Elizabeth Pascual do (Org.). Manual de terapia familiar. Porto Alegre: Artmed, 2009.

JONES, Elsa. Terapia dos sistemas familiares. Lisboa: Climepsi, 1999.

VASCONCELLOS, Maria José Esteves de. Cibernética e terapia familiar: que relação distinguimos hoje? OSORIO, Luiz Carlos; VALLE, Maria Elizabeth Pascual do (Org.). Manual de terapia familiar. Porto Alegre: Artmed, 2009.

[1] É o que ensina Juliana Gontijo Aun, in: AUN, Juliana Gontijo; VASCONCELLOS, Maria José Esteves; COELHO, Sônia Vieira. Atendimento sistêmico de famílias e redes sociais: fundamentos teóricos e epistemológicos. 3. ed. Belo Horizonte: Ophicina de Arte e Prosa, 2012. v. I. p. 16.

[2] Idem, p. 17.

[3] Ibidem, p. 18.

[4] Ibidem, p. 18.

[5] Ibidem, p. 20.

[6] VASCONCELLOS, Maria José Esteves de. Cibernética e terapia familiar: que relação distinguimos hoje? In: OSORIO, Luiz Carlos; VALLE, Maria Elizabeth Pascual do (Org.). Manual de terapia familiar. Porto Alegre: Artmed, 2009. p. 151.

[7] Ob. cit., p. 151.

[8] Ob. cit., 153.

[9] PUGLIESI, Marcio. Teoria do direito. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 56.

[10] Ob. cit., p. 56.

[11] BERTALANFFY, Ludwing von. Teoria geral dos sistemas: fundamentos, desenvolvimento e aplicações. 3. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2008. p. 62.

[12] CEZAR-FERREIRA, Verônica A. da Motta. Família, separação e mediação: uma visão psicojurídica. São Paulo: Método, 2004. p. 180.

[13] Nesse sentido: GRANDESSO, Marilene A. Desenvolvimento em terapia familiar: das teoria às práticas e das práticas às teorias. In: OSORIO, Luiz Carlos; VALLE, Maria Elizabeth Pascual do (Org.). Manual de terapia familiar. Porto Alegre: Artmed, 2009. p. 106.

[14] Ob. cit., p. 154.

[15] Ob. cit., p. 154.

[16] Ob. cit., p. 155.

[17] Ob. cit., p. 156.

[18] Citado por Vasconcellos, ob. cit., p. 158.

[19] Ob. cit., p. 60.

[20] Ob. cit. p. 61.

[21] Ob. cit., p. 53.

[22] JONES, Elsa. Terapia dos sistemas familiares. Lisboa: Climepsi, 1999. p. 31.

[23] Ob. cit., p. 61.

[24] Ob. cit., p. 33.

[25] Ob. cit., p. 182.

[26] Ob. cit., p. 181.

[27] Ob. cit., p. 181.

 

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