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MODELO DE PETIÇÃO CIVIL. SISTEMA FINANCEIRO DE HABITAÇÃO. CONTRATO DE GAVETA. DUPLO FINANCIAMENTO. QUITAÇÃO. POSSIBILIDADE

28/12/20 | Comentários desativados em MODELO DE PETIÇÃO CIVIL. SISTEMA FINANCEIRO DE HABITAÇÃO. CONTRATO DE GAVETA. DUPLO FINANCIAMENTO. QUITAÇÃO. POSSIBILIDADE

Rénan Kfuri Lopes

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Exmo. Sr. Juiz Federal da … Vara – Seção …

ação ordinária n. 

ESPÓLIO DE (nome), representado por sua inventariante …, por seu procurador in fine assinado, nos autos epigrafados promovidos contra … e outros, vem, respeitosamente, apresentar impugnação à contestação ofertada pela Caixa Econômica Federal – CEF (fls. …), pelas razões de direito adiante articuladas:

I – BREVE SÍNTESE DO CADERNO PROCESSUAL

1. Cuida-se na espécie de ação ordinária interposta por Espólio de …, representada por sua inventariante …, em face de …, … e …, visando, em apartada síntese:

em sede de tutela antecipada, o depósito judicial das parcelas números … e …, corrigidas e atualizadas, afastando, com isso, a mora debitoris;

a declaração de quitação integral das parcelas números … a …, vencidas a partir de …, em cumprimento às benesses da Lei n. 10.150/2000, liquidando-se o contrato, e,

a outorga da escritura por …, com a anuência de … E …

2. Na data de …, o 1º réu/…, firmou com o  …º réu/…, contrato particular de compra e venda com financiamento e pacto adjeto de hipoteca.

3. O mencionado contrato tinha como objeto a operação de financiamento com garantia hipotecaria, para aquisição do apartamento nº. … do Ed. …, localizado na Rua …, n. …, Bairro …, nesta capital.

4. Depois de quitadas algumas parcelas do financiamento, o 1º réu/Adelino vendeu o imóvel objeto do financiamento, frise-se, através de “contrato de compra e venda”, sem registro em cartório, cedendo as parcelas faltantes do contrato para a 3ª ré/…

5. Assim, já na posse do imóvel e com algumas parcelas quitadas, a 3ª ré/… a vendeu o imóvel para a autora, por meio de “contrato de compra e venda” FIRMADO NO DIA …

6. Portanto, a partir da data acima mencionada, a autora passou a ser responsável pelo pagamento das parcelas restantes do contrato de financiamento junto à 2ª ré/…, vez que nos dias de hoje está na posse do imóvel, inobstante esteja ainda registrado em nome do 1º réu/…

7. É de se ressaltar, que conforme planilha elabora pela 2ª ré/…, a autora quitou … prestações do contrato de financiamento do imóvel, restando apenas em aberto as parcelas de nºs. …, totalizando 24 parcelas em aberto.

8. Urge destacar que a autora somente deixou de efetuar o pagamento das 24 parcelas restantes em virtude da edição da Lei nº 10.150 de 21 de dezembro de 2000, que conferiu aos mutuários cobertura do saldo devedor remanescente pelo FCVS (Fundo de Compensação das Variações Salariais), exigindo apenas que (i) o contrato fosse firmado anteriormente a … e (ii) o contrato de mútuo tivesse previsão para cobertura do saldo devedor remanescente pelo FCVS.

9. Nesse viés, por se enquadrar in totum nas premissas fundamentais da Lei 10.150/2000, considerando que o contrato objeto da presente demanda foi firmado antes de … e o mesmo tem previsão expressa sobre a cobertura do saldo devedor pelo FCVS, ex vi (doc. …), cláusula …, parágrafo único – faz, jus, portanto, ao benefício que a Lei lhe concede, não podendo ser cobrada por qualquer parcela residual posterior ao dia … (data da entrada em vigor da lei suscitada).

10. Demonstrando sua total boa-fé, a autora confessou ser devedora SOMENTE das prestações …, correspondente a …, ou seja, datas anteriores à entrada em vigor da Lei 10.150/2000.

11. Insta pontuar que a autora por diversas vezes entrou em contato com a 2ª ré/… na tentativa, diga-se, frustrada de efetuar o pagamento das parcelas confessadas, no intuito de ver seu imóvel livre de qualquer restrição. Entretanto, a 2ª ré se recusa a receber, argumentando apenas receber o débito integral do saldo remanescente, desrespeitando totalmente as diretrizes da lei 10.150/2000.

12. O d. juízo determinou à parte autora que juntasse aos autos cópia das primeiras declarações prestadas nos autos do inventário, a fim de comprovar a hipossuficiência para fazer juz ao benefício da gratuidade.

13. Às fls. …, a autora requereu a juntada das “primeiras declarações” prestadas nos autos do inventário.

14. Considerando os documentos juntados, o d. juízo entendeu por bem em conceder a gratuidade à autora, autorizando neste mesmo ato o depósito das parcelas … Após, determinou a citação dos réus.

15. Assim, foi feito o depósito judicial no valor de R$ … (…) — vide fls. …

16. Devidamente citada, a 2ª ré/… compareceu aos autos contestando o pedido, aduzindo em apartada síntese:

1ª preliminar: ser competente para julgamento da lide a Justiça Federal, vez que a Caixa Econômica Federal (CEF) tem interesse na demanda;

2ª preliminar: carência de ação/ilegitimidade ativa: não ter o Espólio da autora, na pessoa da inventariante, LEGITIMIDADE para discutir questões acerca de direito derivados do contrato de financiamento hipotecário firmado no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação;

no mérito, aduz que o real objetivo da Lei 10.150/2000, não é conceder benefícios e ou descontos aos mutuários relativos às mensalidades habitacionais, mas sim resolver a dívida do FCVS;

sustentou que na realidade o benefício da Lei 10.150/2000 não é um direito dos mutuários, mas trata-se sim, de uma faculdade do credor hipotecário.

17. Ao final, pediu que os pedidos formulados na exordial sejam julgados totalmente IMPROCEDENTES.

18. Às fls. …, a Ilustre secretaria certificou o decurso do prazo em relação em relação aos réus … e …, vez que citados, não contestaram o feito.

19. Diante das argumentações trazidas pela 2ª ré/…, a autora às fls. … apresentou impugnação à contestação rebatendo todas as assertivas contidas na peça de resistência.

20. Alegações finais em forma de memorial pela autora às fls. … e pela 2ª ré/… às fls. …

21. O d. juízo da …ª Vara Cível da Justiça Estadual de …, entendeu que “os responsáveis e interessados pelo FCVS são órgãos federais e, portanto, de competência da Justiça Federal a tramitação e julgamento desta ação”. Desta feita, declinou a incompetência para processamento e julgamento do presente feito, remetendo os autos à Justiça Federal.

22. Os autos foram recebidos pelo juízo da …ª Vara Federal, o qual intimou a CEF “para dizer se tem interesse jurídico na demanda, comprovando-o documentalmente” — vide fls. …

23. A Caixa Econômica Federal apresentou Contestação sustentando, em breve resumo:

1ª preliminar: ser a autora parte ilegítima, vez que não há nos autos prova do prévio e expresso consentimento da …/credora em transferir o financiamento;

no mérito, sustenta a impossibilidade de quitação pelo FCVS de mais de um saldo devedor remanescente;

aduz ser a lei n. 8.100/90 ter aplicação imediata, inclusive nos financiamentos em curso;

alega que o mutuário primitivo (…) firmou declaração falsa ao informar que não possuía outro imóvel financiado pelo Sistema Financeiro de Habitação, razão pela qual não pode obter nenhum benefício.

24. Essa é a síntese do caderno processual.

II – PRELIMINARMENTE

II.1 – LEGITIMIDADE ATIVA AD CAUSAM

UNÂNIME o posicionamento do STJ quanto à legitimidade ativa ad causam do cessionário de direitos sobre imóveis financiados para discutir em juízo os chamados “contratos de gaveta”, desde que a cessão tenha ocorrido até 25.10.1996 –

25. Ab ovo, de certo modo assiste razão a CEF, quando alega ser necessária a anuência do agente financiador em caso de transferência do imóvel financiado ao terceiro adquirente.

26. Essa é a regra geral. De fato, numa primeira análise feita pelo d. magistrado, a não observância de previsão legal e contratual que determina a obrigatoriedade de intervenção do agente financeiro na transferência do acordo ou direitos e obrigações dele decorrentes, poderia levar a extinção do feito ao fundamento da ilegitimidade ativa ad causam da autora.

27. Entretanto, há um fato a ser observado por V. Exa. em relação à preliminar arguida, data venia.

28. Conforme se extrai do contrato de fls. …, a autora adquiriu da 3ª ré/…, que por sua vez adquiriu do 1º réu/…, o imóvel objeto da quaestio juris, em …

29. Anos após a aquisição por parte da autora do imóvel financiado, foi editado a Lei nº 8.004/1996, a qual estabeleceu a possibilidade de transferência do imóvel financiado, desde que o agente financiador anuísse com a cessão.

30. Como se vê, salta aos olhos que o contrato de direito, firmado pela autora e a 2ª adquirente do imóvel, a Sra. …, foi celebrado no ano de …, ou seja, antes mesmo de ser imprescindível a intervenção do agente financiador.

31. Daí emerge a pergunta que desmistificará a questão: há como responsabilizar a autora pela falta de anuência do agente financiador na cessão de direitos e obrigações decorrentes do contrato de mútuo, se à época da realização do negócio jurídico não havia nenhum tipo de vedação quanto a essa pratica? Permissa venia, é óbvia a resposta: não!

32. É nesse sentido que a jurisprudência do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA tem se posicionado quando a cessão de direitos tenha ocorrido antes de outubro de 1996, ou seja, antes da Lei nº. 8.004/96, mesmo que sem a intervenção do agente financeiro, in litteris:

AGRAVO REGIMENTAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. CONTRATO DE FINANCIAMENTO IMOBILIÁRIO. SFH. ART. 535, II DO CPC. AUSÊNCIA DE OMISSÃO. CESSÃO DE DIREITOS SEM ANUÊNCIA DA INSTITUIÇÃO FINANCEIRA. CONTRATO DE GAVETA. ILEGITIMIDADE ATIVA “AD CAUSAM”. O art. 22, da Lei 10.150/2000, somente autoriza a equiparação do terceiro adquirente, que obteve a cessão do financiamento sem a concordância do agente financeiro, ao mutuário originário, para todos os efeitos inerentes aos atos necessários à liquidação e habilitação junto ao FCVS, se a transferência ocorreu até 25 de outubro de 1996 e se o contrato de mútuo possui a cobertura do aludido Fundo, o que não foi discutido nos autos.” (AgRg no Ag 1165621/RS, Rel. Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, QUARTA TURMA, julgado em 16/02/2012, DJe 28/02/2012)

RECURSO ESPECIAL. CONTRATO DE FINANCIAMENTO IMOBILIÁRIO. SFH. CESSÃO DE DIREITOS SEM ANUÊNCIA DA INSTITUIÇÃO FINANCEIRA. CONTRATO DE GAVETA. ILEGITIMIDADE ATIVA “AD CAUSAM”. O art. 22, da Lei 10.150/2000, somente autoriza a equiparação do terceiro adquirente, que obteve a cessão do financiamento sem a concordância do agente financeiro, ao mutuário originário, para todos os efeitos inerentes aos atos necessários à liquidação e habilitação junto ao FCVS, se o contrato de mútuo possui a cobertura do aludido Fundo e a transferência ocorreu até 25 de outubro de 1996.” (REsp 1171845/RJ, Rel. Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, QUARTA TURMA, julgado em 18/10/2011, DJe 18/05/2012)

AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. RECURSO QUE NÃO LOGRA INFIRMAR OS FUNDAMENTOS DA DECISÃO AGRAVADA. SFH. LEGITIMIDADE ATIVA DO CESSIONÁRIO. CESSÃO REALIZADA APÓS 25.10.1996. EXIGÊNCIA LEGAL QUANTO Â ANUÊNCIA DA INSTITUIÇÃO FINANCEIRA. 1. Mantém-se na íntegra a decisão agravada quando não infirmados seus fundamentos. 2. O STJ firmou entendimento de que, com a edição da Lei n. 10.150/2000, os cessionários de direitos sobre imóveis financiados pelo SFH possuem legitimidade ativa ad causam para discutir em juízo os chamados “contratos de gaveta”, desde que a cessão tenha ocorrido até 25.10.1996.

3. Agravo regimental desprovido.” (AgRg no REsp 1069080/RS, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, QUARTA TURMA, julgado em 03/02/2009, DJe 16/02/2009)

AGRAVO REGIMENTAL – SISTEMA FINANCEIRO HABITACIONAL – “CONTRATO DE GAVETA” – LEGITIMIDADE ATIVA DO CESSIONÁRIO PARA REVISÃO DO CONTRATO DE FINANCIAMENTO NO ÂMBITO DO SISTEMA FINANCEIRO HABITACIONAL – CONFIGURAÇÃO – AGRAVO IMPROVIDO. 1. O terceiro a quem tenham sido cedidos os direitos e as obrigações relativos a contrato de financiamento imobiliário celebrado no âmbito do Sistema Financeiro Habitacional possui legitimidade ativa ad causam para pleitear judicialmente a revisão desta avença, ainda que o competente agente financeiro não tenha prestado anuência à referida cessão de direitos. 2. Agravo regimental improvido.” (AgRg no REsp 891.799/RJ, Rel. Ministro MASSAMI UYEDA, QUARTA TURMA, julgado em 06/03/2008, DJe 24/03/2008)

33. Redobrada venia, não merece ser acolhida a tese da Caixa Econômica Federal, no sentido de que a autora seria parte ilegítima para figurar no polo ativo da demanda.

III – MÉRITO

III.1 – POSSIBILIDADE DE LIQUIDAÇÃO DO CONTRATO DE FINANCIAMENTO, MESMO EM CASO DE MULTIPLICIDADE DE CONTRATOS

– Matéria decidida em sede de Recurso Repetitivo julgado pelo Superior Tribunal de Justiça — REsp 1133769/RN, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 25/11/2009, DJe 18/12/2009

– PRINCÍPIO DA EFICÁCIA DA LEI NO TEMPO –

– As obrigações, em geral, e, com abundância maior de razão, os contratos, regem-se, em todos os sentidos, pela lei sob cujo império foram constituídos –

– IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DA PENALIDADE REQUERIDA PELA CEF –

– Precedentes do TRF-1 –

34. Reside a presente questão na possibilidade de a CEF opor-se à liberação da garantia contratual e negar a cobertura pelo FCVS do saldo residual vinculado ao contrato em discussão, em razão da multiplicidade de contratos pelo SFH.

35. Mister reavivar alguns fatos para a melhor compreensão do d. juízo sobre o caso sub examine.

36. O mutuário primitivo Sr. … celebrou contrato de financiamento habitacional, com cobertura do Fundo de Compensação de Variações Salariais – FCVS, com a … (fls. …) em …

37. Posteriormente, o Sr. … transferiu de maneira informal e na relação de confiança o contrato de financiamento para a Sra. …

38. Somente na data de …, mediante Contrato Particular de Compra e Venda (fls. …), aquela transferiu o domínio do imóvel objeto da presente ação à autora, operando-se, portanto, a sub-rogação em todos os direitos e obrigações do mutuário primitivo, sendo cediço, aliás, que “nos termos da Lei 10.150/00, o comprador de imóvel, adquirido mediante ‘contrato de gaveta’, sem a interveniência da instituição financeira, equipara-se ao mutuário final para todos os efeitos inerentes aos atos necessários à liquidação e habilitação junto ao FCVS, nos casos em que a sub-rogação ocorreu em data anterior a 25 de outubro de 1996.

39. Concessa venia, o argumento de que o mutuário primitivo não faz jus à cobertura do FCVS por ter outro imóvel financiado pelo Sistema Financeiro da Habitação não merece amparo judicial. Isso porque a regra impositiva de quitação de somente um saldo devedor só passou a viger no mundo jurídico com a edição da Lei 8.100/90, cujo art. 3º tinha a seguinte redação:

Art. 3° O Fundo de Compensação das Variações Salariais (FCVS) quitará somente um saldo devedor remanescente por mutuário ao final do contrato, inclusive os já firmados no âmbito do SFH.

1° No caso de mutuários que tenham contribuído para o FCVS em mais de um financiamento, desde que não sejam referentes a imóveis na mesma localidade, fica assegurada a cobertura do fundo, a qualquer tempo, somente para quitações efetuadas na forma estabelecida no caput do art. 5° da Lei n° 8.004, de 14 de março de 1990.

40. Ocorre que o referido dispositivo legal não poderia ser aplicado retroativamente para limitar a quitação pelo FCVS a um único saldo devedor (RESP n. 393.543/PR, 1ª T., Min. Garcia Vieira, DJ de 08.04.2002).

41. Desta feita, com a edição da Lei 10.150/2000, o referido dispositivo passou a viger com a seguinte redação:

Art. 3º O Fundo de Compensação de Variações Salariais – FCVS quitará somente um saldo devedor remanescente por mutuário ao final do contrato, exceto aqueles relativos aos contratos firmados até 5 de dezembro de 1990, ao amparo da legislação do SFH, independentemente da data de ocorrência do evento caracterizador da obrigação do FCVS. (Redação dada pela Lei nº 10.150, de 21.12.2001).

42. Vê-se, assim, que o ordenamento jurídico passou a permitir expressamente a quitação pelo FCVS do saldo devedor remanescente no final dos contratos firmados até 5 de dezembro de 1990.

43. Dessa maneira, considerando-se que o contrato de mútuo foi entabulado em …, a circunstância de que o mutuário originário seria detentor de outro financiamento imobiliário não inviabiliza a quitação da avença, vez que celebrada esta em data anterior à vigência da Lei nº 8.100/90.

44. De fato, a matéria sub examine resolve-se à luz dos princípios da eficácia da lei no tempo, onde sobressai a regra tempus regit actum.

45. Assim as regras de direito intertemporal recomendam que as obrigações sejam regidas pela lei vigente ao tempo em que se constituíram, quer tenham base contratual ou extracontratual.

46. Nesse sentido, leciona Carlos Maximiliano:

As obrigações, em geral, e, com abundância maior de razão, os contratos, regem-se, em todos os sentidos, pela lei sob cujo império foram constituídos; só excepcionalmente se lhes aplicam os postulados novos. Norma posterior não pode anular ou modificar alguma cláusula expressa de ato bilateral acorde com os preceitos vigentes ao tempo em que ele surgiu.

A boa doutrina tradicional radica-se no Direito Romano, que nos depara o seguinte apoftêgma: ‘In stipulationibus id tempus spectatur quo contrahimus’ – ‘Nas estipulações tem-se em vista o tempo em que as contraímos’.

As regras positivas contemporâneas do estabelecimento da relação obrigacional determinam-lhe a existência e a essência; os respectivos elementos constitutivos; a possibilidade, admissibilidade e natureza do conteúdo; portanto o objeto e o alcance da mesma” (Direito, 1946, Ed. Freitas Bastos, São Paulo, p. 182-183).

47. Da mesma forma, o Mestre Caio Mário da Silva Pereira ressalta a aplicação da lei vigente à época da celebração do contrato, consoante se colhe do seguinte trecho:

Os direitos de obrigação regem-se pela lei no tempo em que se constituíram, no que diz respeito à formação do vínculo, seja contratual, seja extracontratual. Assim, a lei que regula a formação dos contratos não pode alcançar os que se celebraram na forma da lei anterior. Se uma lei define a responsabilidade civil, torna obrigado aquele que comete o fato gerador, nos termos da lei que vigorava ao tempo em que ocorreu; mas, ao revés, se uma lei nova cria a responsabilidade em determinadas condições anteriormente inexistentes, não pode tornar obrigado quem praticou ato não passível de tal conseqüência segundo a lei do tempo. Os efeitos jurídicos dos contratos regem-se pela lei do tempo em que se celebraram”.

48. Ressoa inequívoco que, na data do contrato, vigia a Lei n.º 4.380/64, que não excluía a possibilidade de o resíduo do financiamento do segundo imóvel adquirido ser quitado pelo FCVS, mas, tão-somente, impunha aos mutuários que, se acaso fossem proprietários de outro imóvel, seria antecipado o vencimento do valor financiado:

Lei n.º 4.380/64

Art. 9º. Todas as aplicações do sistema, terão por objeto, fundamentalmente a aquisição de casa para residência do adquirente, sua família e seus dependentes, vedadas quaisquer aplicações em terrenos não construídos, salvo como parte de operação financeira destinada à construção da mesma.

§ 1º. As pessoas que já forem proprietários, promitentes compradoras ou cessionárias de imóvel residencial na mesma localidade não poderão adquirir imóveis objeto de aplicação pelo sistema financeiro da habitação” (in Instituições de Direito Civil, V. I, p. 106).

49. Na data do contrato (…), ainda não estava em vigor a norma impeditiva da liquidação do saldo devedor do financiamento da casa própria pelo FCVS.

50. Destarte, no âmbito contratual, os vínculos e seus efeitos jurídicos regem-se pela lei vigente ao tempo em que se celebraram, sendo certo que no caso sub judice o contrato foi celebrado em …, portanto, antes da restrição legal.

51. Nessa linha é o entendimento pacificado na jurisprudência do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA ao decidir a questão representativa da controvérsia, na forma do art. 543-C, do CPC/73, em julgamento cuja ementa tem o seguinte teor:

PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ART. 543-C, DO CPC. ADMINISTRATIVO. CONTRATO DE MÚTUO. LEGITIMIDADE. CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. SUCESSORA DO EXTINTO BNH E RESPONSÁVEL PELA CLÁUSULA DE COMPROMETIMENTO DO FCVS. CONTRATO DE MÚTUO. DOIS OU MAIS IMÓVEIS, NA MESMA LOCALIDADE, ADQUIRIDOS PELO SFH COM CLÁUSULA DE COBERTURA PELO FCVS. IRRETROATIVIDADE DAS LEIS 8.004/90 E 8.100/90. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO (SÚMULAS 282 E 356/STF. DEFICIÊNCIA NA FUNDAMENTAÇÃO. SÚMULA 284/STF. 1. A Caixa Econômica Federal, após a extinção do BNH, ostenta legitimidade para ocupar o pólo passivo das demandas referentes aos contratos de financiamento pelo SFH, porquanto sucessora dos direitos e obrigações do extinto BNH e responsável pela cláusula de comprometimento do FCVS – Fundo de Compensação de Variações Salariais, sendo certo que a ausência da União como litisconsorte não viola o artigo 7.º, inciso III, do Decreto-lei n.º 2.291, de 21 de novembro de 1986. Precedentes do STJ: CC 78.182/SP, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, DJ de 15/12/2008; REsp 1044500/BA, Rel. Ministra  ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, DJ de 22/08/2008; REsp 902.117/AL, Rel. Ministro  TEORI ALBINO ZAVASCKI, PRIMEIRA TURMA, DJ 01/10/2007; e REsp 684.970/GO, Rel. Ministra  ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, DJ 20/02/2006. 2. As regras de direito intertemporal recomendam que as obrigações sejam regidas pela lei vigente ao tempo em que se constituíram, quer tenham base contratual ou extracontratual. 3. Destarte, no âmbito contratual, os vínculos e seus efeitos jurídicos regem-se pela lei vigente ao tempo em que se celebraram, sendo certo que no caso sub judice o contrato foi celebrado em 27/02/1987 (fls. 13/20) e o requerimento de liquidação com 100% de desconto foi endereçado à CEF em 30.10.2000 (fl. 17). 4. A cobertura pelo FCVS – Fundo de Compensação de Variação Salarial é espécie de seguro que visa a cobrir eventual saldo devedor existente após a extinção do contrato, consistente em resíduo do valor contratual causado pelo fenômeno inflacionário. 5. Outrossim, mercê de o FCVS onerar o valor da prestação do contrato, o mutuário tem a garantia de, no futuro, quitar sua dívida, desobrigando-se do eventual saldo devedor, que, muitas vezes, alcança o patamar de valor equivalente ao próprio. 6. Deveras, se na data do contrato de mútuo ainda não vigorava norma impeditiva da liquidação do saldo devedor do financiamento da casa própria pelo FCVS, porquanto preceito instituído pelas Leis 8.004, de 14 de março de 1990, e 8.100, de 5 de dezembro de 1990, fazê-la incidir violaria o Princípio da Irretroatividade das Leis a sua incidência e consequente vedação da liquidação do referido vínculo. 7. In casu, à época da celebração do contrato em 27/02/1987 (fls. 13/20) vigia a Lei n.º 4.380/64, que não excluía a possibilidade de o resíduo do financiamento do segundo imóvel adquirido ser quitado pelo FCVS, mas, tão-somente, impunha aos mutuários que, se acaso fossem proprietários de outro imóvel, seria antecipado o vencimento do valor financiado. 8. A alteração promovida pela Lei n.º 10.150, de 21 de dezembro de 2000, à Lei n.º 8.100/90 tornou evidente a possibilidade de quitação do saldo residual do segundo financiamento pelo FCVS, aos contratos firmados até 05.12.1990. Precedentes do STJ: REsp 824.919/RS, Rel. Ministra  ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, DJ de 23/09/2008;  REsp 902.117/AL, Rel. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, PRIMEIRA TURMA, DJ 01/10/2007; REsp 884.124/RS, Rel. Ministro  CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, DJ 20/04/2007 e AgRg no Ag 804.091/RS, Rel. Ministro  LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, DJ 24/05/2007. 9. O FCVS indicado como órgão responsável pela quitação pretendida, posto não ostentar legitimatio ad processum, arrasta a competência ad causam da pessoa jurídica gestora, responsável pela liberação que instrumentaliza a quitação. 11. É que o art. º da Lei 8.100/90 é explícito ao enunciar: “Art. 3º O Fundo de Compensação de Variações Salariais – FCVS quitará somente um saldo devedor remanescente por mutuário ao final do contrato, exceto aqueles relativos aos contratos firmados até 5 de dezembro de 1990, ao amparo da legislação do SFH, independentemente da data de ocorrência do evento caracterizador da obrigação do FCVS. (Redação dada pela Lei nº 10.150, de 21.12.2001) 12. A Súmula 327/STJ, por seu turno, torna inequívoca a legitimatio ad causam da Caixa Econômica Federal (CEF). 14. A União, ao sustentar a sua condição de assistente, posto contribuir para o custeio do FCVS, revela da inadequação da figura de  terceira porquanto vela por “interesse econômico” e não jurídico.

15. A simples indicação do dispositivo legal tido por violado (art. 6º, § 1º, da Lei de Introdução ao Código Civil), sem referência com o disposto no acórdão confrontado, obsta o conhecimento do recurso especial. Incidência dos verbetes das Súmula 282 e 356 do STF. 17. Ação ordinária ajuizada em face da CAIXA ECONÔMICA FEDERAL -CEF, objetivando a liquidação antecipada de contrato de financiamento, firmado sob a égide do Sistema Financeiro de Habitação, nos termos da Lei 10.150/2000, na qual os autores aduzem  a aquisição de imóvel residencial em 27.02.1987 (fls. 13/20) junto à Caixa Econômica Federal, com cláusula de cobertura do Fundo de Compensação de Variações Salariais, motivo pelo qual, após adimplidas todas a prestações mensais ajustadas para o resgate da dívida, fariam jus à habilitação do saldo devedor residual junto ao mencionado fundo. 18. Recurso Especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do art. 543-C do CPC e da Resolução STJ 08/2008.” (REsp 1133769/RN, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 25/11/2009, DJe 18/12/2009).

52. Igualmente tem se posicionado o TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 1ª REGIÃO em relação à quitação do financiamento quando há multiplicidade de contratos, verbi gratia:

ADMINISTRATIVO. CONTRATO DE MÚTUO. DOIS OU MAIS IMÓVEIS, NA MESMA LOCALIDADE, ADQUIRIDOS PELO SFH COM CLÁUSULA DE COBERTURA PELO FCVS. IRRETROATIVIDADE DAS LEIS 8.004/90 E 8.100/90. PRECEDENTES DO STJ. ART. 543-C, DO CPC.  1. Se na data em que firmados os contratos de mútuo habitacional (25/10/83 e 29/09/87) ainda não vigorava norma impeditiva da liquidação do saldo devedor do financiamento da casa própria pelo FCVS, porquanto preceito instituído pelas Leis 8.004, de 14 de março de 1990, e 8.100, de 5 de dezembro de 1990, fazê-la incidir violaria o princípio da irretroatividade das leis. Precedentes do STJ (art. 543-C, do CPC).  2. Apelação não provida.” (AC 0005126-41.2002.4.01.3801 / MG, Rel. JUIZ FEDERAL OSMANE ANTONIO DOS SANTOS, Rel.Conv. JUIZ FEDERAL OSMANE ANTONIO DOS SANTOS, 2ª TURMA SUPLEMENTAR, e-DJF1 p.307 de 03/09/2013)

CIVIL E PROCESSO CIVIL. SFH. PACTA SUNT SERVANDA. CONTRATO DE FINANCIAMENTO COM COBERTURA DO SALDO DEVEDOR REMANESCENTE PELO FUNDO DE COMPENSAÇÃO DE VARIAÇÕES SALARIAIS – FCVS. MAIS DE UM SALDO DEVEDOR CONSTITUÍDO ANTES DO ADVENTO DAS LEIS 8.100/90 E 10.150/2000. LIQUIDAÇÃO. POSSIBILIDADE. LEVANTAMENTO DA HIPOTECA.  I – O contrato de financiamento imobiliário ajusta direitos e impõe obrigações a serem observados pelos contratantes. Sua validade requer o cumprimento das normas legais que disciplinam a matéria sob pena de nulidade do negócio jurídico, conforme se depreende dos arts. 104, III e 166, IV do Código Civil Brasileiro. Todavia, a força do princípio pacta sunt servanda – na forma extraída do Código Civil de 1916 – foi mitigada com a edição do Novo Código Civil de 2002, condicionando sua aplicação, entre outros fatores, à função social do contrato, às regras que beneficiam o aderente nos contratos de adesão e à onerosidade excessiva a fim de que na interpretação do contrato, o intérprete observe os padrões socialmente reconhecíveis à modalidade do negócio jurídico. Precedentes do STJ.  II – É entendimento pacífico nas duas Turmas que compõem a 3ª Seção desta Corte, bem como na jurisprudência do egrégio Superior Tribunal de Justiça que examinou a questão à luz dos recursos representativos de controvérsia (543-C, do CPC) que, mesmo diante da existência de outros contratos, é regular a liquidação do saldo devedor de financiamento firmado no âmbito do SFH em data anterior a 5 de dezembro de 1990, com cláusula de cobertura do Fundo de Compensação de Variações Salariais – FCVS. Precedentes: REsp 1133769/RN, Rel. Ministro LUIZ FUX, 1ª Seção, DJe 18/12/2009; AC 18036-93.2008.4.01.3800/MG, Rel. Juiz Federal convocado Rodrigo Navarro de Oliveira, 6ª Turma, e-DJF1 de 08/11/2010; AC 2006.38.00.034309-0/MG, Rel. Desembargador Federal Fagundes De Deus, 5ª Turma, e-DJF1 de 28/10/2010; AC 5977-51.2005.4.01.4100/RO, Rel. Desembargador federal João Batista Moreira, 5ª Turma, e-DJF1 de 10/09/2010; AC 5066-93.2005.4.01.3500/GO, Rel. Desembargador Federal Daniel Paes Ribeiro, 6ª Turma, e-DJF1 de 14/06/2010.  III – Após a adimplência das prestações mensais ajustadas para o resgate da dívida é imperiosa a liberação do gravame hipotecário que recai sobre a matrícula do imóvel. Até porque a hipoteca constitui direito real de garantia e subsiste para assegurar o adimplemento da obrigação principal. Na hipótese em que essa obrigação é liquidada, não há mais o que se falar em garantia, impondo-se sua extinção a teor do art. 1.499, inciso I, do Código Civil. Desse modo, quitado o financiamento ajustado no âmbito do SFH com o pagamento das prestações avençadas é imperativa a liberação do gravame hipotecário.  IV – Na espécie, é regular a liquidação do saldo devedor residual do financiamento habitacional celebrado no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação em 24/06/1985, com cláusula de cobertura do Fundo de Compensação de Variações Salariais – FCVS, ainda que exista outro contrato de financiamento, desde que adimplidas as prestações livremente ajustadas para o resgate da dívida, hipótese que permite o levantamento do gravame hipotecário que recai sobre a matrícula do imóvel.  V – Apelação do Banco Itaú S/A a que se nega provimento.” (AC 0016757-49.2010.4.01.3300 / BA, Rel. DESEMBARGADOR FEDERAL JIRAIR ARAM MEGUERIAN, SEXTA TURMA, e-DJF1 p.221 de 13/08/2013)

CIVIL E PROCESSO CIVIL. RECURSO ADESIVO. SFH. CESSÃO DE CRÉDITOS A EMGEA. LEGITIMIDADE DA CEF. ILEGITIMIDADE DA UNIÃO. CONTRATO DE FINANCIAMENTO COM COBERTURA DO SALDO DEVEDOR REMANESCENTE PELO FUNDO DE COMPENSAÇÃO DAS VARIAÇÕES SALARIAIS – FCVS. MAIS DE UM SALDO DEVEDOR CONSTITUÍDO ANTES DO ADVENTO DAS LEIS 8.100/90 E 10.150/2000. LIQUIDAÇÃO. POSSIBILIDADE. HONORÁRIOS DE ADVOGADO.  I – É desnecessário o chamamento da EMGEA para compor a lide, cuja relação processual encontra-se aperfeiçoada, uma vez que a Caixa Econômica Federal é parte legítima para responder às demandas que versam sobre contrato de mútuo habitacional firmado no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação, ainda que diante de cessão de créditos, uma vez que, à luz do art. 42 do CPC, o cedente não perde a legitimidade. Ademais, a Súmula 327 do egrégio STJ registra que “Nas ações referentes ao Sistema Financeiro da Habitação, a Caixa Econômica Federal tem legitimidade como sucessora do Banco Nacional da Habitação.” Desse modo, a CEF, ao suceder direitos e obrigações do extinto BNH, é responsável pela gerência do Fundo de Compensação de Variações Salariais, razão pela qual deve integrar a relação processual em demandas que discutem a liquidação do financiamento habitacional com cobertura do FCVS. Precedentes desta Corte e do STJ.  II – A União não dispõe de legitimidade para figurar no pólo passivo da relação processual nas demandas que versam sobre contrato de mútuo habitacional firmado no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação. O ingresso da União na lide é de ser indeferido mesmo quando ela promove o requerimento para compor a relação processual na qualidade de assistente simples, com o argumento de que contribui para o custeio do FCVS. Isso porque revela interesse apenas econômico, e não jurídico, hipótese que inviabiliza sua admissão no processo, consoante restou consolidado no julgamento do REsp 1.133.769/RN, submetido ao rito dos recursos repetidos, a teor do art. 543-C do Código de Processo Civil.  III – Ainda que diante da existência de outro contrato, é regular a liquidação do saldo devedor de financiamento firmado no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação em data anterior a 5 de dezembro de 1990, com cláusula de cobertura do Fundo de Compensação de Variações Salariais – FCVS após o ajustamento das prestações avençadas para o resgate da dívida, nos termos da Lei 8.100/90, observadas as alterações da Lei 10.150/2000.  IV – É entendimento pacífico nas duas Turmas que compõem a 3ª Seção desta Corte, bem como na jurisprudência do egrégio Superior Tribunal de Justiça que examinou a questão à luz dos recursos representativos de controvérsia (543-C, do CPC), que a regra restritiva limitadora do uso do FCVS para a cobertura de mais de um saldo devedor só passou a viger no mundo jurídico com a edição da Lei 8.100/90, não alcançando os contratos anteriores à sua vigência, dado que a referida norma legal não poderia ser aplicada retroativamente para limitar a quitação pelo FCVS a um único saldo devedor residual. Precedentes: REsp 1133769/RN, Rel. Ministro LUIZ FUX, 1ª Seção, DJe 18/12/2009; AC 18036-93.2008.4.01.3800/MG, Rel. Desembargador Federal Carlos Moreira Alves, Conv. Juiz federal Rodrigo Navarro de Oliveira, 6ª Turma, e-DJF1 de 08/11/2010; AC 2006.38.00.034309-0/MG, Rel. Desembargador Federal Fagundes De Deus, 5ª Turma,e-DJF1 de 28/10/2010; AC 5977-51.2005.4.01.4100/RO, Rel. Desembargador federal João Batista Moreira, 5ª Turma, e-DJF1 de 10/09/2010; AC 5066-93.2005.4.01.3500/GO, Rel. Desembargador Federal Daniel Paes Ribeiro, 6ª Turma, e-DJF1 de 14/06/2010.  V – Na condenação em honorários de advogado o julgador deve observar a regra dos §§ 3º e 4º do art. 20 do Código de Processo Civil, considerando o grau de zelo do profissional, o lugar de prestação do serviço, a natureza e importância da causa, bem como o trabalho realizado pelo advogado e o tempo exigido para o seu serviço. O arbitramento da verba honorária em R$ 2.000,00 foi convenientemente fixado, razão pela qual o valor deve ser mantido por estar em sintonia com a realidade do caso e de demandas similares examinadas por este Tribunal.  VI – Apelação da CEF e recurso adesivo dos Autores a que se nega provimento.” (AC 0005118-82.2007.4.01.3803 / MG, Rel. DESEMBARGADOR FEDERAL JIRAIR ARAM MEGUERIAN, SEXTA TURMA, e-DJF1 p.239 de 08/08/2013)

PROCESSUAL CIVIL E CIVIL. SISTEMA FINANCEIRO DE HABITAÇÃO. ILEGITIMIDADE PASSIVA DA UNIÃO. QUITAÇÃO DO SALDO DEVEDOR. COBERTURA DO FCVS. CONTRATO PARTICULAR DE CESSÃO E TRANSFERÊNCIA DE DIREITOS. SUB-ROGAÇÃO EM TODOS OS DIREITOS E OBRIGAÇÕES DO MUTUÁRIO ORIGINÁRIO. DUPLICIDADE DE FINANCIAMENTO DE IMÓVEIS ADQUIRIDOS PELO SISTEMA FINANCEIRO DE HABITAÇÃO, COM COBERTURA DO FCVS. CONTRATO CELEBRADO ANTES DA LEI Nº. 8.100/90. POSSIBILIDADE.  I – A União não é parte legitima para figurar no polo passivo de demandas propostas por mutuários do sistema financeiro da habitação, mesmo que no contrato de mútuo haja previsão de cobertura pelo FCVS. Precedentes.  II – “Nos termos da Lei 10.150/00, o comprador de imóvel, adquirido mediante ‘contrato de gaveta’, sem a interveniência da instituição financeira, equipara-se ao mutuário final para todos os efeitos inerentes aos atos necessários à liquidação e habilitação junto ao FCVS, nos casos em que a sub-rogação ocorreu em data anterior a 25 de outubro de 1996. Precedentes” (AC 0001586-23.2008.4.01.3300 / BA, Rel. DESEMBARGADOR FEDERAL JIRAIR ARAM MEGUERIAN, SEXTA TURMA, e-DJF1 p.152 de 24/06/2013). Transferido o domínio do imóvel à autora, mediante contrato particular de cessão e transferência de direitos celebrado em 28/05/1991, como no caso, operou-se, de modo legítimo, a sub-rogação da promovente em todos os direitos e obrigações do mutuário anterior.  III – Na inteligência jurisprudencial do egrégio Superior Tribunal de Justiça, firmada, inclusive, sob o procedimento dos recursos repetitivos, afigura-se ilegítima a negativa da Caixa Econômica Federal, na espécie, em proceder à quitação do saldo devedor, sob o fundamento de existência de outro financiamento em nome do mutuário originário, uma vez que a norma que limitou a quitação pelo Fundo de Compensação de Variações Salariais – FCVS a um único saldo devedor somente sobreveio com a Lei nº. 8.100/90 (modificada pela Lei nº 10.150/2000), não alcançando o contrato objeto da presente demanda, datado de 26/02/1987.  IV – Na espécie dos autos, em homenagem ao princípio da razoabilidade e, ainda, atento aos critérios definidos pelo § 4º do art. 20 do CPC, entendo que a fixação da verba honorária em R$ 2.000,00 (dois mil reais) bem remunera o trabalho realizado pelo ilustre advogado do autor.  V – Apelação da CEF parcialmente provida, apenas para reduzir o valor dos honorários advocatícios, que fixo em R$ 2.000,00 (dois mil reais).” (AC 0002855-88.2009.4.01.4100 / RO, Rel. DESEMBARGADOR FEDERAL SOUZA PRUDENTE, Rel.Conv. JUIZ FEDERAL CARLOS EDUARDO CASTRO MARTINS (CONV.), QUINTA TURMA, e-DJF1 p.113 de 01/08/2013)

CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO ORDINÁRIA. SISTEMA FINANCEIRO DA HABITAÇÃO. LEGITIMIDADE DA CEF. QUITAÇÃO DE SALDO DEVEDOR PELO FCVS. DUPLO FINANCIAMENTO. CONTRATO FIRMADO ANTES DE 05/12/1990. POSSIBILIDADE. EXCLUSÃO DAS PARCELAS MENSAIS INADIMPLIDAS. SENTENÇA MANTIDA.  I – A Caixa Econômica Federal possui legitimidade passiva nos feitos em que se discute contrato de mútuo habitacional firmado no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação, mesmo diante da noticiada cessão de crédito (art. 42 do Código de Processo Civil). Preliminar rejeitada.  II – Nos termos do entendimento firmado pelo Colendo Superior Tribunal de Justiça quando do julgamento do Recurso Especial nº 1133769, submetido à sistemática dos recursos repetitivos, possível a liquidação, pelo FCVS, do saldo devedor de segundo contrato de financiamento para aquisição da casa própria, desde que firmado antes de 05/12/1990, data de vigência da Lei nº 8.100/90, que impôs norma proibitiva.  III – A liquidação pelo FCVS é do saldo devedor do contrato de financiamento, não abrangendo as prestações mensais eventualmente pendentes de adimplemento.  IV – Legítima a execução extrajudicial promovida pelo agente financeiro embasada no inadimplemento das obrigações mensais do mutuário, devendo ser suspensa, com base no poder geral de cautelar conferido pelo art. 798 do Código de Processo Civil, se relacionada ao saldo residual cuja quitação restou assegurada pela sentença recorrida, ora confirmada.  V – Recursos de apelação interpostos pela CEF e pela EMGEA aos quais se nega provimento. Suspensão, com fulcro no art. 798 do CPC, de quaisquer atos tendentes à execução extrajudicial do contrato discutido nos autos, salvo se relacionados a eventuais prestações mensais inadimplidas pela autora.” (AC 0018385-39.2011.4.01.3300 / BA, Rel. DESEMBARGADOR FEDERAL JIRAIR ARAM MEGUERIAN, SEXTA TURMA, e-DJF1 p.131 de 16/05/2013)

53. Destarte, mesmo considerando a circunstância de existirem outros contratos, é regular a liquidação do saldo devedor de financiamento firmado no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação em data anterior a 5 de dezembro de 1990, com cláusula de cobertura do Fundo de Compensação de Variações Salariais – FCVS, após a adimplência das parcelas avençadas, nos termos da Lei 8.100/90, observadas as alterações da Lei 10.150/2000.

54. Noutro norte, a CEF pretende a perda do benefício do FCVS em favor da autora, em razão de atitudes praticadas pelo então mutuário primitivo que supostamente foram contrárias aos objetivos que nortearam a criação do SFH e do FCVS, consoante rezava o art. 9º, § 1º da Lei 4.380/64, in litteris:

Art. 9º Todas as aplicações do sistema, terão por objeto, fundamentalmente a aquisição de casa para residência do adquirente, sua família e seus dependentes, vedadas quaisquer aplicações em terrenos não construídos, salvo como parte de operação financeira destinada à construção da mesma.

§ 1º As pessoas que já forem proprietários, promitentes compradoras ou cessionárias de imóvel residencial na mesma localidade … (Vetado) … não poderão adquirir imóveis objeto de aplicação pelo sistema financeiro da habitação. (Revogado pela Medida Provisória nº 2.197-43, de 2001)

55. Outra vez sem razão, maxima venia.

56. É de extrema importância deixar bem claro que todas as irregularidades narradas pela CEF foram praticadas pelo mutuário primitivo, não se mostrando razoável apenar a autora/adquirente/terceiro de boa-fé, com a perda do benefício do FCVS, na medida em que não praticou ela nenhuma atitude contrária às normas do SFH.

57. Rogata venia, inaplicável a norma do art. 9º, § 1º, da Lei 4.380/64, invocada pela CEF, para justificar a aplicação a autora da penalidade de perda da cobertura do FCVS.

58. Insta pontuar que a norma utilizada para justificar a penalidade de perda da cobertura do FCVS, não possuía o alcance que lhe pretende atribuir a CEF, a saber:

Primus: porque a restrição prevista diz respeito à pessoa (mutuário) e não ao imóvel, ou seja, uma mesma pessoa não poderá adquirir mais de um imóvel, na mesma localidade, com recursos provenientes do SFH.

Secundus: porque, da leitura do referido dispositivo legal, não se extrai a punição pretendida pela CEF. 

59. Noutra vértice, vale lembrar, ainda, que, mesmo se a situação da parte mutuária fosse irregular, a teor do que dispõe o art. 9º da Lei 4.380/64, é certo que a CEF não aplicou nenhuma penalidade, em tempo oportuno, deixando transcorrer normalmente o contrato.

60. Ora, portanto descabe, agora, negar a autora a quitação do saldo devedor pelo FCVS, ao argumento de descumprimento de cláusula do contrato.

61. O TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 1ª REGIÃO em diversas oportunidade assim já se pronunciou, in verbis:

CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. SFH. CESSÃO DE DIREITOS À EMGEA. LEGITIMIDADE PASSIVA AD CAUSAM DA CEF. ILEGITIMIDADE PASSIVA DA UNIÃO. CESSIONÁRIO. CONTRATO COM CLÁUSULA DE COBERTURA PELO FCVS FIRMADO ANTES DE DEZEMBRO/90. QUITAÇÃO DO PACTO. MUTUÁRIOS PRIMITIVOS (VENDEDORES) TITULARES DE DIVERSOS FINANCIAMENTOS. DIREITO DO TERCEIRO DE BOA-FÉ AO BENEFÍCIO DA QUITAÇÃO DO SALDO DEVEDOR RESIDUAL COM RECURSOS DO FCVS.  1. Ainda que tenha havido a cessão do crédito oriundo do contrato de mútuo em discussão, não se me afigura razoável que se opere a plena substituição da CEF pela EMGEA, porquanto não se pode olvidar sua condição de agente financeiro responsável pelo contrato de financiamento habitacional, além de ser a administradora operacional do FCVS.  2. A União é parte ilegítima para integrar o pólo passivo de ações em que se discutem questões atinentes a contrato habitacional regido pelo SFH. Precedentes jurisprudenciais.  3. A empresa seguradora e a SUSEP não são litisconsortes obrigatórias na ação de revisão do contrato de SFH. Precedentes.  4. Cabe à CEF figurar como sujeito passivo da lide que objetiva o reconhecimento do direito a quitação de contrato de mútuo hipotecário pelo FCVS, visto que a administração operacional de tal Fundo lhe compete.  5. O promissário comprador de imóvel ou o cessionário de direitos oriundos de contrato de mútuo hipotecário ostenta legitimidade ativa para pleitear a quitação do saldo devedor residual pelo FCVS e, em conseqüência, a baixa do ônus hipotecário que recai sobre o imóvel, desde que a transferência do contrato tenha sido efetuada até 25.10.1996 (Lei 10.150/2000, art. 22, §1º). Precedentes da Corte e do STJ.  6. “A impossibilidade de quitação de dois financiamentos pelo FCVS somente foi estabelecida a partir da Lei 8.100/90, sendo que a redação do art. 3º desse diploma legal foi alterada pelo art. 4º da Lei 10.150/2000, estabelecendo que a limitação somente se aplica aos contratos firmados a partir de 05/12/90” (STJ, RESP 664.114/SC, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 06/03/2006, p. 179).  7. Na espécie, o contrato foi firmado em 30/07/1987 e possui a cobertura do FCVS, fazendo jus os Autores, a rigor, à quitação do saldo devedor de seu mútuo habitacional nos termos da lei.  8. Entretanto, não prospera a pretendida quitação das parcelas e encargos não pagos antes do fim do prazo contratual original, tendo em vista que, por se consubstanciarem obrigação do mutuário prevista no contrato, não se inserem no conceito de saldo devedor remanescente apurado ao final do ajuste, a ser coberto pelo FCVS. Precedente desta Corte.  9. Apelação dos Autores, da CEF e da EMGEA não providas. Sentença mantida.” (AC 0003740-33.2002.4.01.3200 / AM, Rel. DESEMBARGADOR FEDERAL FAGUNDES DE DEUS, Rel.Conv. JUIZ FEDERAL CÉSAR AUGUSTO BEARSI, QUINTA TURMA, e-DJF1 p.231 de 06/06/2008)

PROCESSUAL CIVIL E CIVIL. SENTENÇA CITRA PETITA. NULIDADE. APLICAÇÃO DO ART. 515, § 3º, DO CPC. JULGAMENTO DA LIDE PELO TRIBUNAL. SFH. ILEGITIMIDADE PASSIVA DA UNIÃO. PRETENSA QUITAÇÃO DE FINANCIAMENTO COM COBERTURA DO FCVS. CONTRATO DE SUB-ROGAÇÃO DE DIREITOS COM CLÁUSULA DE COBERTURA PELO FCVS FIRMADO ANTES DE DEZEMBRO/90. MUTUÁRIOS PRIMITIVOS (VENDEDORES) TITULARES DE DUPLO FINANCIAMENTO. DIREITO DO TERCEIRO DE BOA-FÉ AO BENEFÍCIO DA QUITAÇÃO DO SALDO DEVEDOR RESIDUAL COM RECURSOS DO FCVS. LEIS 8.100/90 E 10.150/2000.   1. Se a Autora postulou a quitação do saldo devedor do contrato habitacional firmado com a CEF, pela cobertura do FCVS e do seguro habitacional, em razão do falecimento do mutuário primitivo, e a sentença extinguiu o processo apenas em razão da ilegitimidade ativa da parte em postular o benefício do seguro habitacional, encontra-se ela eivada do vício de julgamento citra petita, por não ter esgotado a prestação jurisdicional, impondo-se a decretação de sua nulidade, conforme disciplina o artigo 458, II e III, do CPC.  2. Estando o feito regularmente instruído, e sendo a matéria exclusivamente de direito, aplicáveis, ao caso, os princípios da efetividade e da instrumentalidade do processo, para julgar desde logo a lide, na forma prevista no art. 515, § 3º, do CPC.  3. A União é parte ilegítima para integrar o pólo passivo de ações em que se discutem questões atinentes a contrato habitacional regido pelo SFH, ainda que haja previsão contratual de garantia pelo FCVS, uma vez que a administração operacional de tal fundo compete à Caixa Econômica Federal. Precedentes jurisprudenciais.  4. Segundo a regra do art. 3º da Lei 8.100/90, com a nova redação introduzida pela Lei 10.150/2000, o mutuário que celebrou contrato de mútuo hipotecário, com previsão de cobertura pelo FCVS e em data anterior a 05.12.1990, tem direito à quitação do saldo devedor com os benefícios do citado ato legislativo.  5. Da mesma forma, terceiro de boa-fé que adquire imóvel residencial, por intermédio de contrato de sub-rogação de direitos, com previsão de cobertura do FCVS, mediante anuência expressa da CEF, e paga todas as prestações estabelecidas contratualmente, faz jus à quitação do saldo devedor remanescente, valendo-se do benefício do citado fundo, mesmo se os mutuários primitivos (vendedores) tenham adquirido mais de um imóvel com recursos do SFH. Precedentes jurisprudenciais.  6. Apelação provida para pronunciar a nulidade da sentença e, aplicando ao caso o disposto no § 3º do art. 515 do CPC, julgar procedente o pedido autoral.” (AC 0013366-87.2004.4.01.3400 / DF, Rel. DESEMBARGADOR FEDERAL FAGUNDES DE DEUS, Rel.Conv. JUIZ FEDERAL MANOEL JOSÉ FERREIRA NUNES, QUINTA TURMA, DJ p.94 de 30/05/2005)

62. Nesse viés, não havendo óbice legal, é legítima a pretensão da autora de ter seu contrato de mútuo quitado pelo FCVS e, de consequência, obter a liberação da hipoteca incidente sobre o seu imóvel.

IV – DOS PEDIDOS

63. Ex positis, a autora requer:

a) a rejeição da preliminar de ilegitimidade ativa ad causam da autora;

b) a procedência da ação, nos termos dos pedidos relacionados na exordial, acrescido da verba sucumbencial e custas processuais;

c) por se tratar de matéria exclusivamente de direito, que se opere ao julgamento antecipada da lide (CPC, 355, inciso I).

P. Deferimento.

(Local e Data)

(Assinatura e OAB do Advogado)

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